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COLORISMO, IDENTIDADE RACIAL E PERTENCIMENTO: O DEBATE QUE O BRASIL AINDA NÃO CONSEGUIU ENFRENTAR

Dai SchmidtPor Dai Schmidt1 de junho de 202613 Minutos de Leitura
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Discutir identidade racial no Brasil exige compreender uma realidade complexa, construída ao longo de séculos de escravidão, miscigenação e desigualdades estruturais. Diferentemente de outros países, onde as classificações raciais historicamente se apresentaram de forma mais rígida, o Brasil desenvolveu um sistema racial marcado por múltiplas tonalidades de pele e diferentes formas de pertencimento. Nesse contexto, compreender quem compõe a população negra brasileira tornou-se uma questão central para pesquisadores, movimentos sociais e formuladores de políticas públicas.

Desde a segunda metade do século XX, importantes estudos das ciências sociais brasileiras passaram a demonstrar que as desigualdades raciais no país não poderiam ser analisadas apenas a partir da categoria “preto”. Pesquisadores como Carlos Hasenbalg, Nelson do Valle Silva, Lélia Gonzalez e diversos outros estudiosos das relações raciais evidenciaram que pessoas pretas e pardas apresentavam padrões semelhantes de exclusão social quando comparadas à população branca.

Ao analisar indicadores de renda, escolaridade, acesso ao ensino superior, mercado de trabalho, mobilidade social e violência, esses estudos identificaram que pretos e pardos ocupavam posições significativamente mais vulneráveis na estrutura social brasileira. As pesquisas demonstraram que, embora possam existir diferenças de intensidade nas experiências vividas por esses grupos, ambos são afetados pelos impactos históricos produzidos pelo racismo estrutural.

Foi a partir dessas evidências científicas que o Estado brasileiro passou a adotar, em diversas análises e políticas públicas, a categoria “população negra” como o conjunto formado por pessoas pretas e pardas. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) trabalha oficialmente com cinco categorias de cor ou raça — branca, preta, parda, amarela e indígena —, mas os estudos sobre desigualdades raciais frequentemente agrupam pretos e pardos na categoria negra, justamente porque apresentam indicadores sociais mais próximos entre si do que em relação à população branca.

Esse entendimento foi consolidado juridicamente com a criação do Estatuto da Igualdade Racial, instituído pela Lei nº 12.288, de 20 de julho de 2010. A legislação estabelece expressamente que a população negra é o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas, conforme o quesito cor ou raça utilizado pelo IBGE. Portanto, do ponto de vista legal, institucional e das políticas públicas brasileiras, pretos e pardos integram a população negra.
Essa definição não representa apenas uma classificação administrativa. Trata-se de um entendimento construído ao longo de décadas de pesquisas acadêmicas, análises estatísticas e debates promovidos pelo movimento negro brasileiro. O reconhecimento de pretos e pardos como integrantes da população negra foi fundamentado na constatação de que ambos os grupos compartilham, em diferentes graus, os efeitos históricos da discriminação racial e das desigualdades produzidas pelo racismo estrutural.

Por essa razão, diversas políticas públicas de promoção da igualdade racial adotam a categoria “negro” para se referir ao conjunto de pessoas pretas e pardas. O mesmo entendimento orienta a formulação de ações afirmativas em diferentes áreas da sociedade brasileira.

 

Essa definição também fundamenta as políticas de cotas raciais implementadas nas últimas décadas. As ações afirmativas não foram criadas exclusivamente para pessoas pretas de pele retinta. Elas foram concebidas para atender a população negra brasileira, categoria que, segundo a legislação e os critérios adotados pelo Estado brasileiro, é formada por pessoas pretas e pardas. O objetivo dessas políticas é enfrentar desigualdades historicamente acumuladas em decorrência da escravidão, da exclusão social e do racismo institucional.

No entanto, apesar dos avanços produzidos pelas pesquisas acadêmicas e pela legislação, a sociedade brasileira ainda enfrenta dificuldades para compreender a complexidade da identidade racial. Muitas vezes, o debate público reduz a negritude exclusivamente à tonalidade da pele, ignorando fatores como ancestralidade, pertencimento, fenótipo, contexto histórico e experiências sociais marcadas pela racialização.


É justamente nesse cenário que ganha relevância o conceito de colorismo. Amplamente debatido por pesquisadores e ativistas do movimento negro, o colorismo refere-se às diferentes formas pelas quais pessoas negras podem ser tratadas socialmente em razão da tonalidade da pele. Estudos apontam que indivíduos negros de pele mais clara podem experimentar determinadas vantagens relativas quando comparados a pessoas negras retintas. Entretanto, tais diferenças não eliminam sua inserção na estrutura racial brasileira nem os afastam das dinâmicas produzidas pelo racismo.

O colorismo, portanto, não questiona o pertencimento de pessoas pardas à população negra. Pelo contrário, busca compreender como o racismo pode produzir experiências distintas dentro da própria negritude. Reconhecer a existência do colorismo não significa excluir pessoas pardas da categoria negra, mas compreender que o racismo se manifesta de maneiras diferentes entre indivíduos que pertencem ao mesmo grupo racial.

Diversos pesquisadores alertam que reduzir a identidade racial exclusivamente a características físicas visíveis pode produzir interpretações simplificadas de uma realidade historicamente complexa. Em um país marcado pela miscigenação, a identidade racial envolve elementos que ultrapassam a aparência individual, incluindo ancestralidade, pertencimento social, reconhecimento coletivo e experiências concretas de discriminação racial.

Foi dentro dessa complexidade que diferentes casos de questionamento racial passaram a ocupar espaço no debate público brasileiro. Mais do que discutir a aparência de indivíduos específicos, esses episódios revelam tensões importantes sobre identidade, pertencimento, reconhecimento racial e os critérios utilizados para definir quem integra os grupos historicamente afetados pelo racismo.

É nesse contexto que a história de Flávia se insere. Seu caso trouxe à tona discussões fundamentais sobre colorismo, identidade racial e pertencimento, reacendendo reflexões sobre a forma como a sociedade brasileira compreende a negritude em toda a sua diversidade.

Nesta entrevista exclusiva à Revista DBN, Flávia fala sobre identidade racial, pertencimento, colorismo e os impactos de ter sua trajetória colocada sob debate público.

1. Como você recebeu a notícia de que sua identidade racial estava sendo questionada e qual foi sua primeira reação?

Fiquei consternada. Até aquele momento, eu nunca havia passado por uma situação semelhante. Sempre me reconheci como uma mulher negra e jamais imaginei que minha identidade racial seria colocada em dúvida. A notícia veio acompanhada de um sentimento de insegurança, porque eu vi um sonho construído ao longo de muitos anos ser ameaçado de uma forma que eu nunca havia previsto.

2. Em que momento da sua vida você passou a se reconhecer como uma mulher negra e como essa identidade foi construída ao longo da sua trajetória?

Eu sempre me reconheci como uma pessoa negra, porque venho de uma família majoritariamente negra e cresci cercada por referências que faziam parte dessa identidade. Durante a infância e a adolescência, vivi situações de racismo que me marcaram, mas foi na faculdade, estudando antropologia, relações raciais e a história da miscigenação brasileira, que passei a compreender de forma mais profunda o significado dessas experiências e o lugar que elas ocupavam na construção da minha identidade.

3. Qual foi a importância da sua família na construção da sua identidade racial?

Minha família foi fundamental. Foi dentro dela que construí minha autoestima, meu senso de pertencimento e o orgulho da minha história. Cresci cercada por pessoas negras que me ensinaram a valorizar minhas origens e a reconhecer a força da trajetória da nossa família. Essa base foi essencial para que eu desenvolvesse uma identidade racial sólida.

4. Antes desse episódio, você já havia passado por situações em que sua identidade racial foi questionada?

Nunca. A banca de heteroidentificação do concurso para Oficial de Chancelaria foi a primeira vez que minha identidade racial foi colocada em xeque. Ao longo da minha vida, eu já havia enfrentado situações de racismo, mas jamais havia tido minha condição de mulher negra questionada dessa forma.

5. Você acredita que o colorismo teve influência na forma como seu caso foi analisado? Por quê?

Acredito que sim. O colorismo é uma manifestação do racismo que estabelece hierarquias dentro da própria população negra a partir da tonalidade da pele e de características fenotípicas. No meu caso, tenho a impressão de que houve uma interpretação segundo a qual o fato de eu possuir uma pele mais clara me afastaria do direito à política afirmativa. Considero isso um equívoco, porque pessoas pardas também são afetadas pelas desigualdades raciais e enfrentam diferentes formas de discriminação. Quando ignoramos essa realidade, corremos o risco de aprofundar exclusões em vez de combatê-las.

6. Como você define o colorismo e por que esse debate é tão importante no Brasil?

Vejo o colorismo como uma expressão do racismo que cria diferentes graus de privilégio e vulnerabilidade dentro da população negra com base na aparência. Esse debate é importante porque o Brasil tem uma história marcada pela miscigenação e por projetos de embranquecimento que influenciaram a forma como entendemos raça até hoje. Discutir colorismo é compreender como essas hierarquias continuam produzindo desigualdades e como podemos construir políticas públicas mais justas e sensíveis à realidade brasileira.

7. Ao longo da sua vida, você já enfrentou situações de racismo ou discriminação? Poderia compartilhar alguma experiência marcante?

Sim. Ao longo da minha vida, vivi situações de racismo que, muitas vezes, só fui compreender plenamente anos depois. Na infância e na adolescência, ouvi comentários sobre minha aparência, meu cabelo e meus traços físicos que me fizeram sentir diferente. Na época, eu não possuía as ferramentas para interpretar essas experiências. Com o tempo e com os estudos, passei a entender que elas não eram episódios isolados, mas reflexos de um racismo estrutural que atravessa a vida de muitas pessoas negras no Brasil.

8. Como foi ver sua identidade racial sendo debatida publicamente por pessoas que não conhecem sua história e sua vivência?

Foi extremamente doloroso. Ver pessoas que não conhecem minha trajetória, minha família ou as experiências que vivi fazendo afirmações categóricas sobre quem eu sou gerou um sofrimento muito grande. O mais difícil foi perceber que muitas vezes o debate deixou de considerar a complexidade das identidades raciais brasileiras para se concentrar apenas em julgamentos superficiais sobre a aparência.

9. O que mais te incomoda quando outras pessoas tentam definir quem você é apenas pela aparência?

O que mais me incomoda é a reprodução de estereótipos raciais. Muitas vezes, as pessoas partem da ideia de que existe apenas uma forma legítima de ser uma pessoa negra, ignorando a diversidade que caracteriza a população negra brasileira. Quando reduzimos a negritude a um único padrão, apagamos histórias, vivências e formas distintas de pertencimento que também fazem parte da experiência negra no Brasil.

10. Você acredita que a sociedade brasileira ainda possui uma visão limitada sobre quem pode ser considerado negro?

Acredito que sim. Muitas vezes, ainda nos apoiamos em estereótipos construídos historicamente, em vez de compreender a complexidade da formação racial brasileira. Isso acaba limitando a percepção sobre a diversidade existente dentro da população negra. Reconhecer essa pluralidade não enfraquece a identidade negra; pelo contrário, fortalece a compreensão da riqueza e da potência da negritude brasileira.

11. De que forma todo esse processo impactou sua autoestima e sua vida pessoal?

Esse processo gerou muitas inseguranças, especialmente em relação ao meu futuro. Ter minha identidade racial questionada publicamente e ser excluída de uma política que eu entendia como um direito provocou impactos emocionais significativos. Também afetou meu planejamento de vida, porque a possibilidade de construir uma carreira no serviço público fazia parte de um projeto que envolvia não apenas a mim, mas também minha família.

12. Qual foi o momento mais difícil que você enfrentou durante essa experiência?

Sem dúvida, a exoneração. Foi o momento em que as consequências do processo deixaram de ser uma possibilidade e se tornaram realidade. Além do impacto emocional, existe uma insegurança jurídica, financeira e profissional muito grande. Muitos dos planos que eu havia construído para minha vida ficaram suspensos enquanto aguardo uma definição sobre meu futuro.

13. O que te ajudou a encontrar forças para seguir em frente diante de tantas exposições e questionamentos?

O apoio das pessoas que acreditam em mim foi fundamental. Minha família esteve ao meu lado em todos os momentos, me lembrando diariamente da minha história e das minhas capacidades. Também encontrei força em pessoas que passaram por situações semelhantes e em tantas mensagens de apoio que recebi ao longo desse processo.

14. O apoio da família, amigos e da comunidade negra fez diferença para você? Como?

Fez toda a diferença. O apoio da minha família e dos meus amigos foi essencial para que eu mantivesse minha confiança nos momentos mais difíceis. Além disso, o acolhimento de pessoas da comunidade negra me mostrou que eu não estava sozinha. Receber relatos de pessoas que também enfrentaram situações de exclusão ou questionamentos sobre sua identidade reforçou meu sentimento de pertencimento e minha disposição para continuar lutando.

15. Que reflexão você acredita que seu caso traz para o debate sobre colorismo e identidade racial no Brasil?

A principal reflexão é que a busca por justiça social não pode deixar ninguém para trás. Precisamos construir debates que reconheçam as desigualdades existentes sem transformar grupos historicamente vulneráveis em adversários uns dos outros. O objetivo das políticas afirmativas deve ser ampliar oportunidades e promover inclusão, respeitando a complexidade da realidade racial brasileira.

16. O que as pessoas costumam não compreender quando o assunto é pertencimento racial?

Muitas pessoas acreditam que pertencimento racial pode ser definido apenas por uma observação superficial da aparência. No entanto, identidade racial também envolve história familiar, vivências, experiências de discriminação e a forma como cada pessoa é percebida socialmente ao longo da vida. No contexto brasileiro, marcado pela miscigenação, essas trajetórias são especialmente complexas e não podem ser reduzidas a análises simplificadas.

17. Você acredita que sua história pode ajudar outras pessoas que também tiveram sua identidade questionada?

Espero que sim. Espero que minha história mostre que é possível permanecer fiel à própria identidade mesmo diante de questionamentos e pressões externas. Se ela puder ajudar outras pessoas a se sentirem menos sozinhas ou mais confiantes para defender sua própria trajetória, já terá cumprido um papel importante.

18. Que mensagem você deixaria para jovens negras e negros que enfrentam preconceitos ou questionamentos sobre sua identidade?

Eu diria para que não permitam que outras pessoas definam quem vocês são. A construção da identidade é um processo profundo, que envolve história, pertencimento e vivência. Em um país marcado por tantas desigualdades, é preciso coragem para enfrentar preconceitos, mas também confiança para reconhecer o próprio valor e ocupar os espaços que são seus por direito.

19. Depois de tudo o que aconteceu, o que você gostaria que a sociedade aprendesse com a sua história?

Gostaria que as pessoas compreendessem que, por trás de debates públicos, processos administrativos e decisões institucionais, existem seres humanos com histórias, sonhos e famílias. Espero que minha trajetória contribua para um debate mais cuidadoso sobre identidade racial, inclusão e justiça social, sempre com respeito à dignidade das pessoas envolvidas.

20. Quem é Flávia além da polêmica? Quais são seus sonhos, projetos e o legado que deseja construir?

Eu sou uma pessoa movida por sonhos. Venho de uma cidade do interior com menos de 100 mil habitantes e sempre acreditei que a educação poderia transformar minha vida. Foi por meio dela que me formei em Relações Internacionais e construí o sonho de servir ao Brasil no Ministério das Relações Exteriores.

Sou apaixonada por aprender, conhecer novas culturas e viajar. Tenho o sonho de conhecer todos os continentes, inclusive a Antártida, e de construir uma trajetória profissional dedicada ao diálogo entre povos e à cooperação internacional.

O legado que desejo deixar é o de contribuir para uma sociedade em que as pessoas possam escolher seus próprios caminhos, sem que sua origem social, sua raça ou as desigualdades estruturais definam seus limites.

21. Se pudesse resumir em uma frase o que essa experiência lhe ensinou sobre identidade, resistência e amor-próprio, qual seria?

Aprendi que resistir é permanecer fiel à própria história, mesmo quando outras pessoas tentam defini-la por você.

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Dai Schmidt

Dai Schmidt é idealizadora da marca Desfile Beleza Negra e da Revista DBN, disponível em formato impresso e online. Cursando o último ano da graduação em Psicologia, Dai iniciou sua trajetória como modelo em 2007 e, em 2012, passou a atuar como produtora de moda. Ativista comprometida com as questões raciais e sociais, ela utiliza sua experiência e voz para promover a representatividade, criar oportunidades para pessoas em situação de vulnerabilidade e defender a luta antirracista. Seus projetos integram moda, arte e saúde mental, com foco na transformação e impacto social.

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