Assistir a Honestino foi uma experiência que ultrapassou a tela do cinema. O filme me fez refletir sobre memória, liberdade, escolhas e sobre a responsabilidade que temos, enquanto sociedade, diante da história que recebemos e do futuro que ajudamos a construir.
O documentário, dirigido por Aurélio Michiles e protagonizado por Bruno Gagliasso nas cenas de reconstituição, resgata a trajetória de Honestino Guimarães, jovem estudante da Universidade de Brasília (UnB), líder estudantil e presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE). Durante a ditadura militar, sua atuação política fez com que fosse perseguido e preso diversas vezes. Depois do AI-5, passou a viver na clandestinidade. Em 1973, aos 26 anos, foi preso por agentes do Cenimar, no Rio de Janeiro, e desapareceu. Até hoje, seus restos mortais não foram encontrados.
Conhecer a história de Honestino é se deparar com um período em que expressar uma opinião, defender ideias políticas ou lutar por direitos poderia representar um risco à própria vida. E talvez seja justamente por isso que assistir a esse filme hoje seja tão necessário.
Como psicóloga, não consigo assistir a uma história como essa sem pensar nas marcas que a violência, a repressão e o silenciamento deixam no indivíduo, na família e também na sociedade. Quando uma pessoa desaparece de maneira forçada, não existe apenas a ausência física. Existe a falta de respostas, a impossibilidade de uma despedida e uma dor que pode permanecer aberta durante muitos anos.

A história de Honestino também nos faz pensar sobre a memória. Lembrar não significa permanecer preso ao passado. Pelo contrário: lembrar pode ser uma forma de elaborar, compreender e construir novos significados. Quando uma sociedade consegue falar sobre suas experiências dolorosas, reconhecer suas violências e preservar suas histórias, ela cria possibilidades para que essas experiências não sejam apagadas nem naturalizadas.
É por isso que considero Honestino tão importante. O filme não nos apresenta apenas um personagem histórico. Ele nos aproxima de um jovem, de sua família, de seus sonhos, de suas escolhas e de uma vida interrompida pela violência de um período autoritário. Ao humanizar essa história, somos convidados a compreender que, por trás dos acontecimentos políticos, existem pessoas e famílias que carregam suas consequências.
E foi justamente ao sair da sessão que uma reflexão sobre o presente ficou ainda mais forte para mim: o que estamos fazendo hoje com a liberdade que temos?
Nós temos o direito de escolher nossos representantes. Temos o direito de expressar nossas opiniões, questionar, discordar e participar da vida pública. Temos o direito ao voto. E talvez, justamente por termos nascido em um período democrático, muitas vezes não percebamos o tamanho dessa conquista.

Quando falo sobre a importância de votar, não estou dizendo em quem devemos votar. A escolha pertence a cada cidadão. Mas acredito profundamente que precisamos votar com consciência e responsabilidade.
Precisamos conhecer a história dos candidatos, suas trajetórias, suas propostas e suas posições. Precisamos buscar informações, questionar aquilo que recebemos pelas redes sociais e não permitir que nossas escolhas sejam feitas apenas pela emoção, pela influência de outras pessoas ou por discursos que não conhecemos profundamente.
O voto é individual, mas suas consequências são coletivas.
As escolhas que fazemos nas urnas interferem na educação, na saúde, na cultura, nas políticas sociais, nos direitos e na própria forma como uma sociedade se organiza e cuida das pessoas.
Como psicóloga, acredito que desenvolver pensamento crítico é também uma forma de cuidado. Não precisamos pensar todos da mesma maneira. A democracia pressupõe diferenças, diálogo e pluralidade. Mas precisamos ter liberdade para pensar, questionar e escolher.
E é justamente isso que torna a história de Honestino tão atual.
Ele viveu em um período em que essa liberdade foi brutalmente restringida. Sua voz foi silenciada, sua trajetória interrompida e sua família passou décadas convivendo com a ausência e a falta de respostas. Hoje, nós temos instrumentos democráticos que nos permitem participar das decisões sobre o país que queremos construir.
Por isso, acredito que conhecer histórias como a de Honestino também é uma forma de educação para a cidadania. Não podemos tratar a democracia como algo automático. Ela precisa ser valorizada, exercida e protegida.
Honestino me deixou uma pergunta que considero importante para todos nós: o que estamos fazendo com a liberdade que tantas pessoas lutaram para conquistar?

Talvez uma das respostas esteja justamente na forma como escolhemos participar da sociedade.
Lembrar é importante. Conhecer a história é necessário. Questionar é fundamental.
E votar conscientemente também é uma forma de exercer a nossa liberdade.
Porque quando conhecemos o passado, compreendemos melhor o presente. E quando fazemos escolhas conscientes no presente, também participamos da construção do futuro.
Ficha Técnica
HONESTINO – Brasil, 2025
Sinopse: Fusão de documentário e ficção, o filme conta a história de Honestino Guimarães, líder estudantil da geração 68, presidente da UNE e aluno da UnB. Preso cinco vezes por sua militância, Honestino foi sequestrado em 1973, aos 26 anos, e é um dos centenas de desaparecidos da ditadura militar. Baseado em cartas, poemas e imagens de arquivo, dezenas de depoimentos de familiares, amigos e militantes e cenas interpretadas por Bruno Gagliasso.
Direção: Aurélio Michiles
Roteiro: Aurélio Michiles e André Finotti
Produção: Nilson Rodrigues
Produção Executiva: Caetano Curi
Elenco: Bruno Gagliasso
Direção de Fotografia: André Lorenz Michiles
Direção de Arte: Kita Flórido
Figurino: Isabel Lorenz Michiles
Montagem: André Finotti
Supervisão de Edição de Som: Miriam Biderman, ABC
Desenho de Som e Mixagem: Ricardo Reis, ABC
Trilha Sonora Original: Flavia Tygel
Música Tema (intérprete): Fafá de Belém
Pesquisa de Arquivo: Aurélio Michiles, Mariana Couto, Patricia Freyer, Tereza Eleutério
Produção: Mercado Filmes
