Uma despedida que não é fim, mas continuidade em luz
O Brasil amanheceu mais silencioso. No ar, um misto de saudade e reverência. Preta Gil partiu – e com ela se vai um corpo, mas jamais uma voz. Porque sua voz, suas cores, sua coragem e sua entrega ao mundo seguirão ecoando em cada canto onde o amor, a liberdade e a arte forem celebrados.
Filha da música, da luta e da beleza de ser exatamente quem se é, Preta Gil nos deixa um vazio que só se explica por tudo que ela preencheu em vida. Uma mulher que, com generosidade, desafiou padrões, enfrentou preconceitos e abriu caminhos para que outras pudessem caminhar com menos medo e mais orgulho.

Preta não apenas viveu — ela brilhou. Brilhou quando lançou seu primeiro álbum em 2003 e assumiu, com ousadia, o protagonismo de sua própria história. Brilhou ao transformar suas redes em palcos de afeto e empoderamento. Brilhou ao transformar seu Bloco da Preta, um dos maiores do carnaval carioca, em um espaço de celebração da diversidade, da liberdade e da alegria política.
Brilhou quando, sem pedir licença, mostrou seu corpo como ele é — lindo, potente, revolucionário. Brilhou quando cantava, quando amava, quando defendia com doçura e firmeza as causas que abraçava.
Sua luta contra o câncer foi mais um testemunho de sua grandeza. Sem esconder as dores, sem perder a doçura, Preta nos deu um exemplo raro de dignidade e humanidade. Compartilhar sua batalha foi seu último ato de amor público: um lembrete de que a vida vale mesmo quando dói, e que a esperança é revolucionária.
Ela foi muito além da música. Preta Gil era presença. Era verbo. Era posicionamento. Sua militância não vinha com cartazes, mas com postura. Em tempos de vozes silenciadas, ela falava — e fazia falar. Ergueu-se contra a gordofobia, contra o racismo, pela liberdade LGBTQIAPN+, pelas mulheres, pelos corpos livres. Preta era território de afeto e revolução.

Nos palcos, nos bastidores, nas entrevistas e nos encontros — ela era um elo entre mundos, entre causas, entre dores e afetos. Deu voz a quem era calado. Amor a quem era marginalizado. Humanidade a quem só conhecia o julgamento.
Preta Gil agora pertence aos ventos. Ao som do mar. Às multidões que dançam livres. Às mulheres que ousam amar seus corpos. Aos filhos que veem nos pais artistas também grandes exemplos. Aos amigos que sabem que amor é presença, mas também é memória viva.
Ela vive no filho, Francisco. Nos discos. Nos vídeos, nas risadas, nos debates, nas causas. Em sua família artística e afetiva. Preta Gil nunca será só lembrança — ela será sempre presença multiplicada.
Obrigada, Preta. Por ser tanta. Por ser tudo.
Neste adeus, o que fica é mais do que dor. Fica orgulho. Fica gratidão. Fica a missão de seguir com coragem, como ela nos ensinou. Fica o compromisso com a verdade, com a beleza da diversidade, com o amor próprio.
Hoje, o céu recebe uma estrela com um coral em festa. Aqui, a gente continua, com lágrimas nos olhos, mas o coração repleto de luz. Porque Preta Gil vive. Em nós. Em todas as cores. Em todas as lutas. Em todo o amor.