Nas últimas temporadas, as passarelas internacionais e as coleções de renomadas grifes têm demonstrado uma evidente reverência ao trabalho manual, elevando o artesanato de suas raízes folclóricas a um patamar de alta costura. Longe de ser uma tendência passageira, a incorporação de técnicas ancestrais e a valorização do “feito à mão” representam um movimento robusto que ressoa com a busca por autenticidade, sustentabilidade e narrativas mais profundas na moda.

A influência do artesanato atua de forma múltipla, permeando desde a escolha dos materiais até a complexidade das texturas e a singularidade dos acabamentos. Técnicas como o bordado, por exemplo, ressurgem com força, não apenas como um detalhe, mas como elemento central de peças inteiras. Grifes como Dior e Valentino são mestras em transformar simples tecidos em obras de arte através de bordados manuais que contam histórias, adicionando profundidade e riqueza visual. Os bordados podem variar desde os mais delicados e quase imperceptíveis até os mais exuberantes e tridimensionais, incorporando miçangas, paetês, fios metálicos e até mesmo pedras preciosas.

Outra técnica que tem ganhado destaque é o crochê e o tricô. O que antes era associado a peças mais rústicas, agora desfila em modelagens modernas e design sofisticados. Gabriela Hearst, com sua paixão por materiais naturais e processos artesanais, tem sido uma das grandes defensoras do tricô manual, criando peças que exalam elegância e um toque orgânico. O crochê, por sua vez, aparece em tramas abertas, criando transparências e texturas que remetem a redes e rendas, como visto em coleções de verão da Loewe, que exploram a leveza e a fluidez do material em peças que remetem ao beachwear elevado.

A renda, em suas diversas técnicas – da renda bilro à renascença –, também continua a encantar designers. Sua delicadeza e complexidade oferecem um contraste intrigante com tecidos mais robustos ou cortes minimalistas, adicionando um toque de feminilidade e sofisticação atemporal. Marcas como a Chanel frequentemente utilizam a renda em detalhes primorosos que elevam a peça a um patamar de joia.

No cenário nacional, o resgate e a valorização do artesanato ganham força e visibilidade. Marcas como a baiana Dendezeiro, por exemplo, têm se destacado por incorporar elementos da cultura e do trabalho manual em suas coleções. Conforme noticiado pelo portal FFW em matéria sobre a trajetória da marca, a Dendezeiro explora a brasilidade através de peças que, muitas vezes, trazem referências a técnicas artesanais e à identidade nordestina, conferindo um DNA único e autêntico. Essa abordagem não só enriquece o design, mas também celebra a mão de obra local e as tradições regionais.
Outro exemplo notável é a Mão de Mãe, uma iniciativa que nasceu com o propósito de fortalecer comunidades e valorizar o trabalho manual de mulheres. Reportagens em diversos veículos de comunicação destacam como a Mão de Mãe transforma o crochê e outras técnicas manuais em peças sofisticadas e contemporâneas, gerando renda e empoderamento. Suas criações, que vão de bolsas a acessórios e vestuário, evidenciam a versatilidade e o potencial do artesanato quando aliado a um design moderno e consciente.

Além das técnicas mais conhecidas, há um universo de outras práticas artesanais que encontram seu lugar nas passarelas. O macramê, com seus nós decorativos, surge em acessórios e até mesmo em detalhes de vestuário, conferindo um ar boêmio e chic. A tapeçaria, com suas cores e texturas densas, é reinterpretada em jaquetas e coletes, adicionando peso e uma estética artística. O patchwork, a arte de unir retalhos, ganha uma nova roupagem, tornando-se uma ferramenta para a criação de peças únicas e com um apelo sustentável, demonstrando a beleza da reciclagem e da criatividade na reutilização de materiais.

Essa valorização do artesanato na moda contemporânea não é meramente estética; ela reflete um desejo por produtos com alma, que carregam consigo a história de suas origens, a habilidade de quem os fez e a urgência de uma produção mais consciente. Em um mundo cada vez mais digitalizado e massificado, o artesanal surge como um contraponto, oferecendo exclusividade, durabilidade e uma conexão humana que transcende as tendências efêmeras. É a união perfeita entre o talento das mãos e a visão clássica da moda, celebrando a riqueza cultural e a perpetuidade de tradições.